Como fazer a IA escrever sem cara de IA

Uma sigla no prompt resolve o que "seja mais direto" nunca resolve.

Atualizado em 05 de out. de 20267 min de leitura

Todo mundo que usa IA para escrever conhece o sintoma: o texto sai correto, completo e insuportável. Frase que não acaba, três adjetivos onde cabia um, e aquele parágrafo de abertura que explica o que ele vai explicar.

A saída mais comum é pedir "escreva de forma mais simples e direta". Funciona por dois parágrafos e o modelo volta a enfeitar.

Existe um atalho melhor, e ele vem da manutenção de aeronaves.

Em vez de descrever o estilo que você quer, diga o nome de uma norma que já descreve esse estilo em 53 regras.

A norma se chama ASD-STE100.

O que é

ASD-STE100, ou Simplified Technical English, é uma especificação de linguagem controlada criada em 1985 para manuais de manutenção de aeronave.

O problema que ela resolve é sério: um mecânico em qualquer lugar do mundo precisa ler um procedimento e entender exatamente a mesma coisa, sem margem para interpretação, porque a alternativa é uma peça montada errada.

Ela é mantida pelo STEMG, um grupo de trabalho da ASD, a associação da indústria aeroespacial e de defesa europeia. A edição atual saiu em janeiro de 2025 e tem 53 regras de escrita e um dicionário de cerca de 900 palavras aprovadas.

A especificação é gratuita desde 2013. Dá para baixar o PDF completo no site oficial e ler as regras você mesmo.

Por que isso conserta texto de IA

As regras atacam exatamente os vícios que o modelo tem. As que mais pesam:

  • Uma palavra tem um significado só, e uma classe gramatical só
  • Frase de procedimento no máximo com 20 palavras, de descrição com 25
  • Uma instrução por frase
  • Um assunto por parágrafo, no máximo seis frases
  • Voz ativa obrigatória
  • Nada de empilhar mais de três substantivos seguidos
  • Lista vertical quando a informação é complexa

Repare no que acontece quando você junta "uma palavra, um significado" com "20 palavras por frase": o modelo perde as duas ferramentas favoritas dele, que são a sinonímia decorativa e a subordinada infinita.

E tem uma regra que eu acho a mais inteligente de todas: não corte pedaço da frase para deixá-la mais curta. Ou seja, encurtar não pode virar telegrama. O artigo, a preposição e o conectivo ficam. O que sai é o excesso, não a gramática.

O prompt

A forma mais simples:

Reescreva o texto abaixo seguindo a especificação ASD-STE100 (Simplified Technical English).

Só que a norma é severa. Ela foi feita para manual de manutenção, e aplicada ao pé da letra deixa qualquer texto com cara de instrução de montagem. Para artigo, email e apresentação isso passa do ponto.

A solução é dosar, e aqui está a parte boa da técnica:

Reescreva o texto abaixo seguindo 80% do caminho até a ASD-STE100. Mantenha o limite de frase, a voz ativa e uma ideia por frase. Pode usar vocabulário fora do dicionário aprovado para o texto não ficar robótico.

Esse "80% do caminho" funciona porque o modelo entende a norma como um eixo, e não como um botão de liga e desliga. Você escolhe onde parar.

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Antes e depois

Um parágrafo típico de saída de IA:

É importante ressaltar que a implementação de uma estratégia de inteligência artificial bem-sucedida requer, necessariamente, um alinhamento profundo entre as diversas áreas de negócio da organização, sendo fundamental que haja um patrocínio executivo claro e consistente ao longo de toda a jornada de transformação digital.

São 45 palavras para dizer duas coisas.

O mesmo conteúdo com as regras aplicadas:

Uma estratégia de IA precisa de duas coisas. As áreas de negócio devem estar alinhadas. Um executivo deve patrocinar o projeto do começo ao fim.

Passou de 45 para 25 palavras, em três frases de uma ideia cada. Sumiram "é importante ressaltar", "necessariamente", "profundo", "fundamental", "consistente" e "jornada de transformação digital". Nenhum deles carregava informação.

O detalhe que muda tudo em português

Aqui vai o que ninguém avisa: o dicionário de 900 palavras é em inglês.

Pedir ASD-STE100 para um texto em português não traz a parte do vocabulário, porque ela não existe no nosso idioma. O que atravessa é a parte estrutural, e ela é a que faz quase todo o trabalho.

Então para escrever em português, peça assim:

  • Frases de no máximo 20 palavras
  • Uma ideia por frase
  • Voz ativa
  • Um assunto por parágrafo, no máximo seis frases
  • Sem empilhar substantivos
  • A mesma palavra para a mesma coisa, do começo ao fim

Essa última é a mais subestimada. Se você chamou de "cliente" no primeiro parágrafo, não vire "usuário" no terceiro e "consumidor" no quinto. O modelo faz isso o tempo todo porque aprendeu que repetir palavra é pobre. Em texto técnico, repetir palavra é precisão.

A lição maior

O truque aqui é maior que essa norma específica, e vale guardar separado:

Nomear um padrão publicado é compressão de prompt. Uma sigla carrega instruções que você levaria vinte linhas para escrever.

O modelo já leu a especificação. Você não precisa explicar o que quer, basta apontar para onde isso já está escrito e bem escrito.

Outros nomes que funcionam do mesmo jeito, cada um puxando um pacote diferente de regras:

NomeO que ele traz
ASD-STE100Clareza extrema, frase curta, zero ambiguidade
Plain languageLinguagem simples para público geral, padrão de governo
Guia de estilo do Gov.ukTexto de serviço público, direto e sem jargão
Manual de redação da FolhaPortuguês jornalístico brasileiro
AP StylePadrão de imprensa em inglês

Vale testar qual casa com a sua voz. E vale combinar: pedir a estrutura de uma com o vocabulário de outra costuma dar resultado melhor que qualquer uma pura.

Quando não usar

A norma nasceu para eliminar ambiguidade, e ambiguidade às vezes é o que você quer.

  • Texto que precisa emocionar não sobrevive a 20 palavras por frase. Venda, manifesto e história querem ritmo, e ritmo precisa de frase longa ao lado de frase curta
  • Negociação e diplomacia às vezes exigem a margem que uma frase mais aberta oferece
  • Sua voz pessoal mora justamente nas escolhas que a norma proíbe

Onde ela brilha: documentação, procedimento, email de instrução, política interna, material de treinamento e qualquer coisa que outra pessoa vai executar sem poder te perguntar nada.

Minha conclusão

Vale fazer um teste de cinco minutos hoje. Pegue o último texto que a IA escreveu para você, mande reescrever a 80% do caminho da ASD-STE100, e compare lado a lado.

Se funcionar, guarde o pedido como instrução fixa no seu ChatGPT ou no seu Claude, para não ter que repetir toda vez.

E guarde principalmente a ideia por trás: quando você souber o nome do padrão que descreve o que você quer, use o nome. É mais curto, mais preciso e mais consistente do que tentar descrever com as suas palavras.

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